O carnaval é retratado em preto e branco por Boris Arrivabene.
Podemos interpretar essa decisão artística como um ponto de convergência entre sua atividade profissional principal e a arte: Boris era médico radiologista.
Assim como as áreas claras e escuras contrastam num exame de imagem para revelar o diagnóstico, o contraste radical entre o preto e o fundo neutro intensifica a expressividade das cenas.
Quando pensar um retrato artístico do carnaval suscita uma profusão cromática e a exploração da sensorialidade, Arrivabene contraria expectativas e cria gravuras que transmitem de maneira única toda a vibração da grande festa brasileira que tanto o inspirou.
O carnaval como linguagem simbólica
A festa em preto e branco é celebração, mas não só isso. A obra de Boris investiga sua estrutura simbólica.
Cena de Carnaval - Gravura em Metal
Não há cenário nem ambientação descritiva. As figuras parecem flutuar no vazio, mas seus movimentos são teatrais, vigorosos e repletos de ritmo. Os corpos são constituídos por massas de preto intenso cheias de dramaticidade, ou mais diluído, que criam silhuetas que se dissolvem no espaço. As imagens evocam um teatro de sombras. A festa torna-se teatro social.
Há também composições em que a leveza das linhas substituem a força de manchas densas. Em uma dessas obras, observamos o contorno bem definido de corpos nus totalmente entregues a essa encenação carnavalesca. As posturas e semblantes nos permitem identificar a dialética estabelecida entre as personagens.
Passista e cuiqueiro - Gravura em metal, 1986
Boris também criou composições estilizadas onde a atmosfera frenética provoca o olhar, instando-o a encontrar os corpos camuflados no emaranhado de linhas. Somos desafiados a desvendar todos os movimentos que se sobrepõem num fragmento de tempo.
Carnaval - Gravura em metal, 1969
Arrivabene produziu intensamente entre as décadas 1960 e 1980. Em tempos de censura, o carnaval com sua permissividade e abertura para uma inversão temporária de papéis sociais era a janela de oportunidade para se discutir identidade, liberdade, poder e ambiguidade.
Sobre o artista
Boris Arrivabene (São Paulo, 1922 - 2000) foi médico radiologista, chegou a dirigir um grande hospital na capital paulista e, mesmo exercendo profissões tão exigentes, dedicou-se à atividade artística com profundidade, navegando entre a pintura, a escultura e a gravura.
Arrivabene trazia elementos da atividade médica para sua técnica artística, utilizando instrumentos cirúrgicos para trabalhar esculturas e matrizes para gravura.
A maior parte de suas gravuras foi trabalhada em preto e branco. O artista explorava o contraste profundo para atribuir expressividade e dramaticidades a suas obras.
Em 2018, a Associação Paulista de Medicina realizou a mostra Os Carnavais de Boris, em que expôs 9 gravuras em metal que fazem parte do acervo do setor cultural da APM. No texto de apresentação, Guido Palomba, então Diretor Cultural da APM, conta que as obras foram presentes de Arrivabene e revela: "À época, [Boris] confidenciou-nos que a gravura sempre o desafiou a buscar a oposição entre o claro e o escuro, a riscar o traço impressionista-expressionista, a mergulhar o conjunto no ácido, controlar o processo final e imprimir. Agora, podemos contemplar o resultado, os contrastes, a sensualidade das figuras retratadas e a beleza do movimento que elas exprimem."
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