Refletir sobre o termo natureza morta é se deparar com a maneira como sociedades se organizam, suas viões de mundo, a influência da religião sobre elas e como a palavra de uma única pessoa (poderosa, contudo) foi capaz de consolidar a denominação de um gênero artístico e posicioná-lo em uma hierarquia.
 
Carlos Marques - Esmalte sobre Metal, 1979 - Acervo Lenach

 

Usado predominantemente em países de língua latina, o nome "natureza morta" designa obras de arte que retratam objetos inanimados, como flores, frutos, instrumentos musicais, livros, utensílios domésticos e tantos outros. Eles são dispostos de maneira intensional pelo artista, explorando tanto a materialidade quanto aspectos simbólicos.
 
 
Na Holanda, a stilleven
 
Na antiguidade já havia representações artísticas desse gênero, mas ele ganhou preponderância no século 17 na Holanda.
 
Com a prevalência do protestantismo nos Países Baixos, o uso imagens religiosas passou a ser rejeitado na região, o que favoreceu a abordagem de temáticas mais terrenas na pintura. Valorizavam-se o cotidiano, os diversos tipos de trabalho e os recursos materiais que sustentam o viver (que eram considerados graça divina desde que obtidos honestamente).
 
Foi nesse contexto que a natureza morta ganhou espaço na região onde foi denominada stilleven. Esse termo quer dizer vida imóvel, ou seja, ainda que não retratassem seres vivos, havia vida nas telas. (Nas composições chamadas vanitas, a presença de um crânio lembrava a finitude humana e a futilidade das coisas terrenas.)
 
As stilleven no século 17 eram bem realistas. Cores, formas, reflexos, contraste de luz e sombra, tudo isso desperta os sentidos de quem observa a obra. Veja este quadro de Peter Claesz, Stilleven com torta de peru, de 1627. 
 
A mesa é retratada após a refeição, e apesar de não haver nenhuma ação na cena, ela denota todo o movimento que existiu antes do momento registrado no quadro. O único ser vivo que aparece ali é o pintor, cujo reflexo se vê na jarra de metal. 
 
A mesa farta e os utensílios refinados, especialmente a faca com cabo ornamentado e um nome gravado, contam um pouco da história de seus proprietários. Eles provavelmente eram membros da burguesia que estava em franca ascensão na Holanda daquela época. 
 
Detalhes como a textura acetinada da molheira feita de concha, o frescor das fatias transparentes de laranja e das ostras e o brilho na pele das frutas atribuem sensualidade à composição e despertam os sentidos dos observador.
 
 
O poder da palavra
 
"Natureza morta" vem do francês "nature morte", termo que não tem sua origem bem definida, mas que foi consolidado por André Félibien, teórico e crítico de artes francês de grande relevância no século 17. Ele viveu na corte de Luís XIV, em Versailles, e além de se debruçar sobre pintura, foi também historiador do Rei, escreveu sobre arquitetura e cultura, entre tantas outras atividades. 
 
Félibien definiu uma hierarquia de gêneros artísticos em termos de prestígio e valor cultural. Para ele, o homem (um ser criado à imagem e semelhança de Deus) e suas realizações são temas superiores e dignos de representação na arte. No nível mais baixo da classificação estava a natureza morta.
 
Apesar de a palavra 'morta' ser aqui simplesmente sinônimo de 'inanimada', ela reforça a ideia de inferioridade do gênero.
 
Eis o poder da palavra de um homem que, sendo considerado uma autoridade dentro da corte mais poderosa da Europa na época, tem suas teorias adotadas em outros países de língua latina tanto pela influência política e cultural francesa quanto pelo compartilhamento da religião e de uma visão mundo que valoriza a alegoria, a mitologia e personagens históricos (frequentemente mitificados).