Reunião do Grupo Seibi em 1953
Criado em São Paulo em 1935 por artistas imigrantes japoneses, o Grupo Seibi foi uma das agremiações mais longevas do cenário artístico no Brasil e desempenhou um papel decisivo na consolidação da pintura nipo-brasileira. O grupo estabeleceu um ambiente de estudo, crítica e intercâmbio entre seus membros e também com artistas brasileiros ou imigrantes vindos de outros países.
O Seibi constituiu um espaço onde a tradição oriental e os movimentos artísticos ocidentais encontraram um terreno comum, e onde cada artista encontrou espaço e incentivo para desenvolver sua própria linguagem artística, marcando definitivamente a produção de diversas gerações.
A estruturação do Grupo Seibi
Também conhecido como Seibi-Kay, o São Paulo Bijutsu Kenkyu Kai foi fundado pelos pintores Tomoo Handa, Hajime Higaki, Walter Shigeto Tanaka, Yoshiya Takaoka, Yuji Tamaki, Kichizaemon Takahashi e Kiyoji Tomioka, pelo escultor Iwakichi Yamamoto e pelo poeta Kikuo Furuno.
Para manter o grupo unido e organizado, os membros definiram algumas diretrizes fundamentais:
- estreitar a relação entre os membros da capital paulista e do interior;
- realizar reuniões periódicas de apreciação e crítica dos trabalhos;
- contribuir para o desenvolvimento de jovens artistas;
- estabelecer relacionamento com artistas brasileiros e outros grupos;
- promover exposições coletivas.
Essa prática, bastante inovadora para o Brasil dos anos 1930, aproximava-se dos círculos de estudo existentes no Japão e permitia que cada artista desenvolvesse sua linguagem sem perder o diálogo com seus pares.

Reunião do Seibi-kai em 1958. Tomoo Handa ao centro.
Expressão artística e repercussão
Alguns dos membros do Seibi obtêm formação no Japão e outros no Brasil, mas o academicismo não corresponde aos ideais artísticos do grupo, que se identifica com o modernismo e busca formas mais livres de expressão.

Hajime Higaki - Morro de Santos, 1950 - Acervo Artístico da Assembleia Legislativa de São Paulo
Dentro do movimento modernista, Mário de Andrade surge como uma voz importante que reconhece publicamente o trabalho dos integrantes do Seibi. Ele se torna interlocutor de Tomoo Handa e contribui para a inserção dos artistas nipo-brasileiros no circuito intelectual e artístico paulistano.
Sob o ponto de vista das temáticas, o trabalho dos integrantes do Seibi refletem suas experiências e o meio em que estão inseridos, seja a área rural para onde os imigrantes foram inicialmente direcionados ou os centros urbanos.

Tomoo Handa - Colheita de Algodão, 1943 - Coleção Família Handa
O intercâmbio com artistas brasileiros e outros grupos abre portas para que alguns membros do Seibi participem do Salão de Maio, evento que contemplou a exibição da obra de artistas modernos e ocorreu de 1937 a 1939.
É digna de nota a interação do Seibi com o Grupo Santa Helena, formado em grande parte por artistas italianos de relevância no cenário artístico paulistano, como Aldo Bonadei, Alfredo Volpi e Fulvio Pennacchi. O diálogo entre os grupos chegou a render uma exposição realizada em 1977 no Museu de Arte Brasileira da FAAP titulada “Grupo do Santa Helena e Grupo Seibi - década de 35 a 45", traçando paralelo entre suas trajetórias e experimentações.
O hiato durante a 2a Guerra e a retomada das atividades
As relações diplomáticas entre Brasil e Japão foram rompidas em 1942 por conta da Segunda Guerra Mundial. Em decorrência disso, as atividades de associações da comunidade japonesa em território brasileiro foram vetadas e até mesmo falar japonês foi proibido.
Durante esse período, o Grupo Seibi cancelou oficialmente suas reuniões, mas manteve discretamente a troca de experiências e a realização de pequenas exposições somente entre membros.
Com o término da guerra, o Seibi reorganizou-se e retomou suas atividades em 1947. Essa segunda fase foi marcada pela chegada de novos artistas, entre eles Manabu Mabe, Tikashi Fukushima, Tadashi Kaminagai, Tomie Ohtake e Flávio-Shiró.

Manabu Mabe - Composição, 1967 - Acervo MASP
Nessa fase, o abstracionismo ganha espaço nas discussões do grupo.
Em 1951, diversos integrantes do Seibi participam da I Bienal Internacional de São Paulo.
Foram criados também os Salões Seibi, realizados anualmente entre 1952 e 1970. Eles se tornaram uma das principais vitrines da produção nipo-brasileira, revelando novos talentos e aproximando seus participantes do circuito artístico nacional.
Essas mostras ganham notoriedade dentro da comunidade japonesa e passam a contar com o patrocínio de empresas nipo-brasileiras. Em 1964, o Salão é realizado no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.
A contribuição para a arte brasileira
Ao longo de sua existência, o Seibi contribuiu para ampliar a diversidade da arte moderna brasileira, incorporando diferentes maneiras de observar a paisagem, construir o espaço pictórico e compreender a relação entre desenho, cor e composição.

Tikashi Fukushima - Lins, 1948
Com o passar das décadas, muitos artistas ligados ao Seibi desenvolveram trajetórias independentes e conquistaram reconhecimento nacional e internacional, consolidando definitivamente a presença da arte nipo-brasileira na historiografia da arte brasileira.
Um legado que permanece
O Grupo Seibi ajudou a construir uma ponte entre culturas distintas, demonstrando que a arte produzida por imigrantes japoneses e seus descendentes no Brasil não constituiu um capítulo isolado, mas parte do desenvolvimento da modernidade artística brasileira.
Ao destacar a história do grupo e colocar à disposição obras de artistas que integraram o Seibi, a Lenach reforça o reconhecimento e a valorização da produção nipo-brasileira, contribuindo para manter viva a memória de um dos grupos mais significativos da história das artes plásticas no país.
Artistas ligados ao Seibi-Kai na Galeria Lenach
Tadashi Kaminagai
Manteve contato com o ambiente artístico formado pelo Seibi durante o período do pós-guerra. Sua pintura exerceu forte influência sobre diversos artistas nipo-brasileiros, especialmente aqueles que buscavam conciliar sólida formação técnica com uma interpretação sensível da paisagem brasileira.

Tadashi Kaminagai - Nu feminino
Flávio Shiró
Inicia sua carreira com obras figurativas, de caráter expressionista, e posteriormente dedica-se à abstração informal a partir da década de 1950.
Cria obras nas quais se destacam a gestualidade da pincelada e as superfícies carregadas de matéria, empregando freqüentemente o negro e cores escuras ou neutras.

Flavio Shiró - Abstrato em Técnica Mista
João Kozo Suzuki
Iniciou sua carreira em 1952, participou de 8 Salões Seibi e desenvolveu sua produção em um ambiente profundamente influenciado pelos ideais do grupo.
Visões oníricas e crítica social perpassam a obra do artista. Disse Enock Sacramento sobre ele: “a arte de Suzuki, numa visão global, é uma mistura de magia e incitamento à ação, qualidades que lhe asseguram um lugar de destaque na linha de frente da melhor arte brasileira”.

João Suzuki - Pintura sobre madeira
Mitsutaka Kogure
Um dos mais importantes representantes da vertente figurativa da pintura nipo-brasileira. Formou-se em Tóquio, onde participou de exposições antes de imigrar para o Brasil em 1960.
Seus temas incluem paisagens, portões, cenas urbanas, mas sua obra vai além do retrato do real. A respeito de Kogure, disse Pietro Maria Bardi: “...um poeta que interpreta a realidade.”

Mitsutaka Kogure - Fachada
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